sábado, 14 de julho de 2007

Dissecando "Interlúdio"

Quando os artistas se encontram ficam sempre perguntando: “De onde você tirou essa idéia?" "Que papel usou?”, etc. Por isso pensamos em fazer uma série de postagens dissecando cada uma das Hqs publicadas pelos sócios nos três números da Garagem Hermética.

Pra começar, nada mais natural do que falar dos trabalhos mais recentes, então decidi começar por “Interlúdio”, publicada no número 3 desta revista que pra gente é um laboratório onde tudo vale.

Espero que não fique chato demais e que gostem.

“A vida é aquilo que acontece quando não estamos olhando”.

Eu queria fazer um quadrinho que retratasse isso. O fato de uma pessoa estar tão concentrada em um determinado aspecto da sua vida a ponto de não perceber que estava perdendo o que era realmente importante. Nas Hqs, ninguém tem profissão mais importante que os heróis, então não tinha situação mais adequada do que um super-herói em sua vida doméstica.

Além disso, também queria testar novos modelos visuais narrativos (coisa que tenho tentado desde o número 1 da revista) e tentar fazer uma página que fosse ousada em termos de diagramação. Sempre fui um grande fã das hqs “bonitas de se ver “, como Little Nemo in Slumberland, por isso pedi para nossa editora “limpinha” Roberta, me reservar a página central, pois queria fazer algo que tivesse a cara de um pôster.

Pra piorar tudo e me confundir mais ainda com tantas referências, tinha uma imagem que há meses não me saia da cabeça: uma mulher sentada com um cigarro na mão olhando preocupada para um homem que dormia. Fiquei sendo assombrado por essa cena que me lembrava as telas da pintora Paula Rego por muito tempo até conseguir esboçá-la no lápis.

Tentando organizar tudo isso, pensei que o conceito do interlúdio musical resumia muito bem a idéia que eu queria trabalhar.

Interlúdio pode ser definido em música como "pequena peça de música instrumental, intercalada entre as várias partes ou trechos de uma composição mais longa e mais importante."

Esta seria a visão do personagem principal. Ironicamente, o contrário aconteceria na história, mostrando que o mais importante era a peça de menor destaque. Pra resolver graficamente esta ironia, resolvi trabalhar usando duas soluções gráficas distintas: o nanquim de alto contraste usado nas hqs clássicas para a “vida com máscara” e aquarela em papel arches, para uma abordagem mais realista.

Assim, ficaria clara a passagem das “peças principais” para o interlúdio e da vida idealizada para a vida real. Para a vida de herói, usei como referências capas clássicas de Jack Kirby e Jim Steranko em releituras bem-humoradas, e recorri aos amigos e família para posarem de modelos para a parte em aquarela.

No fim, escaneei tudo e montei e letreirei no Photoshop. Pra preservar ao máximo a textura do papel e o contraste característico da aquarela, não aliterei nada nas imagens.

Bom, acho que já falei demais. Além do Kirby, do Steranko e da Paula Rego, tem outras referências pra quem tiver paciência pra procurar que vou deixar no mistério. Boa leitura.

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